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| David Mourão-Ferreira Portugal, 1927-1996 |
(...) a maravilha que deve ser
escrever um livro: a invenção dentro da memória; a memória dentro da invenção;
e toda essa cavalgada de uma grande fuga, todo esse prodígio de umas
poligâmicas núpcias, secretas e arrebatadas, com a feminina multidão das palavras:
as que se entregam, as que se esquivam; as que é preciso perseguir, seduzir,
ludibriar; as que por fim se deixam capturar, palpar, despir, penetrar e
sorver, assim proporcionado, antes de se evaporarem, as horas supremas de um
amor feliz. Não há matéria mais carnalmente incorpórea; nem outra mais disposta
a por amor ser fecundada.
Como se pode interpretar de outro modo esse velho lugar-comum de ter um filho,
plantar uma árvore, escrever um livro? Só se em todos os casos se tratar de
grandes e inevitáveis actos de amor: com a Mulher, com a Terra, com a Língua.
Mas de plantar árvores e ter filhos haverá sempre muita gente que se
encarregue. De destruir árvores também; de estragar filhos igualmente. Em
compensação, um livro, um livro que viva, multiplicado, durante alguns anos ou
alguns séculos, e que depois vá morrendo, sem ninguém dar por isso, mas nunca
de uma só vez, até ser enterrado na maior discrição ou até se ver de súbito
renascido, inesperadamente ressuscitado, um livro com semelhante destino - luminoso
por mais obscuro, obscuro por mais luminoso -, isto é que foi sempre o que me
empolgou.
David Mourão-Ferreira, in 'Um Amor Feliz'

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